Nem o nariz, nem os olhos, nem a cor dos cabelos. Quando perguntam à professora de educação infantil Andrea Lia Bechara, 30 anos, o que ela tem em comum com a mãe, Hedy, a primeira resposta é a seguinte: “A tara por doces”. As duas não passam sem sobremesa na hora do almoço e sempre beliscam alguma guloseima antes de dormir. A segunda resposta é menos animada. Filha e mãe têm tendência para engordar e já foram cúmplices de várias dietas. Aos 53 anos, Hedy está acima do peso — 69 quilos para 1,59 metro —, excesso adquirido depois da gravidez. Quer perder 5, apenas para se sentir mais saudável. Privações alimentares? Huuum... “Não pretendo deixar de comer nada, embora também não faça grandes loucuras”, pondera. Andrea mantém os 53 quilos em 1,54 metro porque malha quatro vezes por semana e segura a onda à mesa. “Eu me controlo muito porque sei que a tendência para engordar é superforte.”
De fato, com a genética não dá muito para brincar, principalmente quando se fala nas características que a mãe pode passar para a filha. Ainda que o pai contribua com metade do DNA, o fato de as duas estarem sujeitas à gangorra dos hormônios mês a mês aproxima seus destinos. “As mães dão ótimas pistas do que pode acontecer com o corpo das filhas no futuro”, afirma o endocrinologista Filippo Pedrinola, de São Paulo (SP). Dos centímetros a mais no quadril aos quilos resistentes após a gravidez, da preferência por um certo prato à preguiça de fazer exercício, a genética fala alto.
Acontece que ela não trabalha sozinha, mas faz sociedade com os hábitos do dia-a-dia. “O que herdamos é genético, mas essas características sofrem influência do estilo de vida”, lembra Decio Brunoni, geneticista do Centro de Genética Médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Isso significa que (ufa!) é possível driblar certas características genéticas não muito desejáveis e mudar o perfil do retrato da família. Depende basicamente de reconhecer a tendência e investir nas soluções que, muitas vezes, estão bem à mão.
pêra ou maçã?
Pêra é coisa de mulher, maçã do seu pai. Sem esquecer as exceções, dá para fazer essa associação quanto ao tipo de corpo que você herdou. Em geral, as mulheres concentram a gordura do quadril para baixo e ganham forma de pêra, também conhecida como ginóide. Já os homens tendem a engordar no abdômen – daí o perfil de maçã ou androgênico. O.k., mas digamos que sua mãe seja do tipo maçã (menos comum, como foi dito, mas perfeitamente possível) e você, mesmo assim, não consegue passar o jeans pelo bumbum toda vez que volta das férias com uns quilos a mais. “Pode ser uma herança da tia ou da avó”, lembra Decio Brunoni. Certas características pulam gerações e, por isso, é importante observar a árvore genealógica como um todo.
Há outras marcas pontuais que valorizam a força dos genes. Nas poucas vezes em que extrapola seus rasos 47 quilos, a promotora de justiça Priscila Maiello Prado, 30 anos, percebe que engorda nas costas, logo abaixo dos braços. “Acontece igualzinho com a minha mãe”, diz. O quadril proporcional e as pernas finas, também herdados, ajudam a manter o corpo em cima. Melhor ainda: sem estrias nem celulite – outras características que pegam carona no DNA. Dá, porém, para driblar a tendência a desenvolver culote, barriguinha e celulite reduzindo a gordura corporal.
isto funciona
• Se você tem corpo tipo pêra e, portanto, tendência a acumular mais gordura na região do culote, dá para reduzi-lo fazendo exercícios aeróbicos (caminhada, corrida, natação). Claro que esse tipo de atividade reduz a adiposidade do corpo como um todo, mas se o seu problema maior é o culote, é lá que o benefício será mais evidente. Tonificar os músculos laterais das coxas também é uma boa pedida para deixá-las mais firmes e bem desenhadas. Só não aposte na hipertrofia, pois se os músculos crescerem, o culote vai ficar mais aparente. “O ideal é ter mais repetição e menos carga”, diz a personal Patrícia Miguel. Ela sugere três séries de 12 a 15 repetições.
• O corpo tipo maçã é marca registrada da família? Dê o gás nos exercícios aeróbicos, que reduzem a gordura também na barriga e não se esqueça dos abdominais.
• Atenue a celulite reduzindo gorduras e carboidratos do mal (farinha branca, açúcar) do seu cardápio. a herança está no prato
Sua mãe é fissurada por pão? Está mais para um rodízio de carnes? Ou é do tipo light? Se pensa que isso não diz respeito a você, pense de novo. De acordo com uma pesquisa americana coordenada pelo psicólogo John de Castro, professor da Georgia State University, em Atlanta, a hereditariedade tem tudo a ver com a preferência alimentar. Ao estudar o comportamento de gêmeos à mesa, ele percebeu que, mesmo vivendo longe um do outro, eles recheavam seus pratos com quantidades bem semelhantes de carboidratos, proteínas e gorduras. John afirma que a resposta do nosso cérebro aos diferentes sabores tem relação ancestral com a genética e isso, claro, influencia a escolha do cardápio.
Por outro lado, os especialistas lembram a importância do ambiente familiar na hora de montar o prato. “Os hábitos adquiridos respondem por uma parte importante do peso — ou pior, do sobrepeso”, diz a nutricionista Ana Paola Monegaglia, de São Paulo. O fato é que a ciência ainda não decidiu o que pesa mais. Por isso, previna-se contra os dois riscos. Ainda que seus genes estejam implorando pela lasanha da mamma, você pode driblá-los cultivando hábitos saudáveis.
Os hábitos do dia-a-dia são importantes na definição do corpo que teremos no futuro. Ou seja, se vamos ganhar quilos extras ou continuar magras. A genética, porém, tem um papel mais importante do que se suspeitava até recentemente, principalmente em aspectos como o tipo de corpo (pêra, maçã...), a tendência a engordar e até mesmo o fato de gostarmos de doces ou de exercícios.